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Entre o divã e o terreiro: Por que decidi estudar Freud sendo um homem de espiritualidade

  • Foto do escritor: Felipe Campos
    Felipe Campos
  • 29 de jan.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 29 de jan.

Sempre tive curiosidade pela mente humana. Antes mesmo de saber o que era psicologia, psicanálise ou qualquer teoria, eu já pensava demais. Observava minhas reações, meus sentimentos, meus conflitos. Tentava entender por que eu era como era.

Uma lembrança da infância sempre volta quando penso nisso.


Eu tinha mais ou menos oito anos quando meu pai começou a faculdade de Psicologia. Ele estava empolgado com tudo aquilo. Lia muito, comentava as aulas, falava dos professores, das teorias. Um dia, sentou comigo e começou a me explicar, do jeito dele, o que eram o Id, o Ego e o Superego.


Eu não entendia quase nada, tecnicamente. Mas aquilo me marcou. A ideia de que dentro da gente existem forças diferentes, desejos, impulsos, limites, conflitos… Aquilo ficou na minha cabeça por muito tempo.


A partir dali, comecei a me observar mais. Pensar no que eu sentia. No que eu queria. No que eu reprimia. No que eu escondia até de mim mesmo. Foi como se eu tivesse descoberto que existia um mundo inteiro funcionando dentro da minha mente.

Com o tempo, acabei ficando com os livros de psicologia do meu pai. Muitos ainda estão comigo até hoje. Eu lia sem obrigação. Não era por prova, nem por diploma. Era porque eu gostava. Porque me interessava.


Mesmo quando minha vida já estava totalmente envolvida com a espiritualidade, com o Templo Pena Azul, com os atendimentos e com os estudos espirituais, esse interesse nunca foi embora. Ele sempre esteve ali, me acompanhando.

Durante muito tempo, meu contato com Freud, Jung e outros autores era mais superficial. Eu conhecia ideias, conceitos, referências. Usava isso como base para pensar meus atendimentos, minhas observações, minhas leituras espirituais. Mas ainda não era um mergulho profundo.


Até que um atendimento mudou bastante o meu jeito de enxergar tudo isso.

Atendi uma mulher que tinha um medo enorme de água. Não era receio. Era pânico. Ela travava. Não conseguia entrar em piscina, rio, mar. Não conseguia nem chegar perto. E não lembrava de nenhum motivo claro para isso. Nenhum trauma conhecido. Nenhuma situação marcante na infância.


Durante o trabalho espiritual, tive a percepção de uma cena ligada a uma vida passada, envolvendo água, desespero, afogamento. Dentro da lógica espiritual, aquilo fazia sentido para mim. Mas eu nunca fui do tipo que aceita as coisas sem questionar.


Quando o atendimento terminou, fui pesquisar. Ler. Estudar. Procurar explicações psicológicas para aquilo. Fui atrás de textos sobre fobias, medos, repressões, traumas.

Encontrei, principalmente em Freud, explicações sobre como muitos medos podem nascer de experiências reprimidas, muitas vezes na infância. Situações que a pessoa esquece conscientemente, mas que continuam agindo no inconsciente.

Ao mesmo tempo, encontrei algo que me chamou atenção: o próprio Freud reconhecia que nem tudo conseguia ser explicado com clareza. Que havia sintomas, medos e conflitos cuja origem não era fácil de localizar. Que existiam limites na própria teoria.

Aquilo ficou martelando na minha cabeça.


Foi aí que uma pergunta começou a surgir com força dentro de mim:

E se a visão espiritual sobre reencarnação e karma estiver certa?

E se parte dos nossos conflitos, medos e bloqueios não tiver começado apenas nesta vida?


Se isso for verdade, então algo está faltando na psicologia e na psicanálise. Não no sentido de estarem erradas. Mas no sentido de estarem incompletas.

Ao mesmo tempo, eu via que muita espiritualidade também ignorava completamente os processos psíquicos, emocionais e inconscientes. Tratava tudo como “energia”, “obsessão”, “karma”, sem olhar para a história da pessoa, para seus traumas, para suas defesas.


Era como se cada área enxergasse só metade do ser humano. E eu estava bem no meio disso, vivendo, na prática, essa fronteira todos os dias. Em algum momento, ficou claro para mim que, se eu quisesse unir esses dois mundos com responsabilidade, eu precisava estudar de verdade. Sem atalhos, sem misturas prontas, sem discurso bonito. Foi por isso que decidi me formar em Psicanálise Clássica, dentro do pensamento freudiano. Eu fiz isso de forma muito consciente. Não queria uma formação espiritualizada, não queria interpretações místicas, não queria romantização.


Eu queria entender a clínica como ela é, com método, com teoria, com técnica, com limites. Porque eu sei o quanto, hoje, a espiritualidade muitas vezes se perde em discursos confusos, cheios de crenças pessoais e pouca base. Eu não queria reproduzir isso.


O espiritual, eu ajustaria depois, com cuidado, ética e principalmente muita responsabilidade. A partir daí, minha visão foi se formando naturalmente.

Na clínica, eu escuto como psicanalista. Sem misturar. Sem espiritualizar o processo. Respeito o inconsciente. Respeito a história da pessoa. Respeito seus tempos, seus conflitos, suas defesas.


No campo espiritual, eu reconheço que somos mais do que esta existência. Que a alma também carrega memória. Que nem tudo se resolve só no nível mental.

Hoje, para mim, não existe mais separação rígida entre essas duas áreas.

Existe diálogo.

A mente fala e a alma também fala, cada uma na sua linguagem.

E quando as duas são escutadas com seriedade, o processo de autoconhecimento se aprofunda muito.

 
 
 

1 comentário


Maria Salete
20 de fev.

Você vê o ser humano como um todoe tem acertividade total

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